O “Mês da Juventude” (mas que mês não é?) - CAPÍTULO 2 – ‘Tem um lugarzinho pros pequenos aí’?

O “Mês da Juventude” (mas que mês não é?) – CAPÍTULO 2 – ‘Tem um lugarzinho pros pequenos aí’?

CAPÍTULO 2 – ‘Tem um lugarzinho pros pequenos aí’?

Se você leu a pastoral do domingo passado, pode ser que tenha ficado surpreso ou mesmo chocado (se não leu, talvez queira conseguir um exemplar do último boletim). Mas, ainda que a ideia de Jesus ter escolhido adolescentes e jovens como seus discípulos possa parecer desrespeitosa e absurda, uma análise mais próxima do texto bíblico e de seu contexto histórico pode revelar uma importante verdade a respeito do Reino de Deus: nele, crianças, adolescentes e jovens dividem espaço na história da salvação com adultos e anciãos, e são tão dignos de crédito e confiança quanto quem já usou a primeira metade da vida ou já está no fim dela. Sim, soa estranho, mas é verdade. Veja só:

No judaísmo do primeiro século, um rabino só era reconhecido como dotado de autoridade para ensinar a Lei e os Profetas publicamente após os 30 anos (idade na qual Jesus inicia seu ministério). A partir de então, o didáskalos (“professor”, “instrutor”, “mestre”) escolhia mathetes (“pupilo”, “aluno”, “aprendiz”) que se destacassem nos estudos rabínicos, que eram concluídos até os 15 anos de idade. Estes recebiam a honra de “serem cobertos pela poeira das sandálias de um rabino”, seguindo seus passos pelos anos seguintes. Os demais – desprovidos de brilho acadêmico – dedicavam-se a aprender o ofício de seus pais. O chamado do Nazareno caminhando na praia era, portanto, a segunda chance para os quatro pescadores, do cobrador de impostos, do zelote e dos demais que, alias, não hesitaram em segui-lo.

Pertencentes a uma cultura regida pela honra, os homens judeus eram tratados com o respeito devido à sua idade; chama atenção que, em pelo menos três passagens, o Messias se refira a seus discípulos como “pequeninos”, “criancinhas” e “filhinhos” (termos ofensivos e depreciativos a indivíduos adultos). Outro detalhe intrigante é o fato de que, em geral, um judeu recebia uma esposa após os 18 anos de idade; curiosamente, nos Evangelhos, Simão parece ser o único já casado dos 12 seguidores do Cristo. Além disso, o confronto feito pelos cobradores na presença dos discípulos quanto a Jesus não pagar o imposto do Templo (Mt. 17:24-27) foi direcionado – novamente, perceba – a Pedro. A taxa é exigida apenas de homens “de vinte anos para cima” (Ex. 30:14). Em resposta à exigência, Jesus diz a Pedro que apanhe um peixe em cuja boca seria achado um státera – moeda de valor suficiente para pagar o imposto devido pelo jovem pescador e por seu mestre, mas não pelos demais discípulos, menores de 20 anos, ao que tudo indica.

Este espaço não me permite abordar as muitas outras evidências que apontam para este intrigante fato que, creio, parece claro: por alguma razão, o Filho de Deus achou uma boa ideia dedicar a maior parte de seu ministério público ao preparo de um improvável grupo de adolescentes e jovens que, cheios de Seu Espírito, propagaram Sua história até os confins da Terra.

Acha que estou exagerando nesse negócio de Deus contar com “meninos e meninas” em Sua história da salvação? Se sim, permita-me fazer uma sugestão: lide com isso. Una-se a Deus na confiança, encorajamento e confiança nas gerações que estão vindo depois de você. Afinal, por mais que as obras de arte e filmes sobre a vida de Jesus insistam em criar um imagético (como diria nosso querido e brilhante pastor Cassé) de discípulos barbados e de meia idade, Deus sempre teve os pequeninos, desengonçados e impetuosos dividindo espaço com os experientes, maduros e grisalhos em seu time de heróis da fé. Que bom que Samuel, Davi, Daniel (e seus amigos), Jeremias, Maria, Timóteo, Pedro, André, Tiago e João (num barquinho) e mais um mói de pirralhos – a quem, aliás, Ele disse que pertence o Reino – estão aí para não nos deixar esquecer disso.

 

(Continua…)